Da revolução neolítica à agricultura regenerativa

Sinara Bueno Schiavon

Especialista em Sustentabilidade

6 min de leitura
25/08/2026
Da revolução neolítica à agricultura regenerativa

A primeira grande transformação agrícola começou no Período Neolítico, quando os humanos dispunham de recursos abundantes e iniciavam o processo de sedentarização. Isso levou à aglomeração de pessoas em um mesmo espaço, à especialização dos utensílios e a uma exploração mais intensiva do solo. Um bom exemplo foi a produção agrícola no deserto, através dos sistemas hidráulicos do Vale do Nilo. Esse período pode ser considerado a Primeira Revolução Agrícola.

Da mecanização britânica à Revolução Verde

O crescimento populacional tornou necessário produzir mais em menos área. Os britânicos lideraram essa etapa entre os séculos XVIII e XIX, com a introdução de culturas de maior rendimento, novas rotações e melhorias no maquinário agrícola. O agricultor deixou de arar o solo manualmente com o apoio de mulas, cavalos ou jumentos e passou a utilizar tratores com grade.

A Terceira Revolução Agrícola, conhecida como Revolução Verde, teve início no México entre 1950 e o final da década de 1960, com a busca pela autossuficiência alimentar de uma população crescente e em processo de urbanização. O melhoramento genético convencional gerou variedades de alto rendimento, de porte baixo e menos suscetíveis a doenças, sobretudo em trigo e arroz. Vale registrar que essas variedades foram obtidas por cruzamento e seleção, e não por transgenia, que só chegaria à produção comercial nos anos 1990. Inovações em irrigação, pesticidas e fertilizantes sintéticos também marcaram o período.

A Revolução Verde ampliou de forma decisiva a oferta mundial de alimentos, e trouxe custos. Os produtos sintéticos começaram a se infiltrar no solo, esgotando nutrientes e contaminando mananciais de água doce. Muitas das culturas introduzidas exigiam grande volume de água, o que acelerou a pressão sobre esse recurso.

Atualmente vivemos o período da Quarta Revolução, caracterizado por maquinários autônomos, inteligência artificial e substituição progressiva do trabalho humano em várias etapas da produção. E o que isso tudo tem a ver com a agricultura regenerativa?

O que a intensificação fez com o solo

O uso de maquinário pesado passou a promover a compactação do solo, o que dificulta o desenvolvimento radicular, reduz a matéria orgânica nas camadas superficiais, diminui a biodiversidade e a microbiota, além de contribuir para o aumento da acidez.

O uso desenfreado de insumos sintéticos começou a matar polinizadores naturais, e com o tempo as pragas ganharam resistência, o que exigiu novas formulações. Muitos fertilizantes sintéticos, sobretudo os nitrogenados, foram identificados como fontes relevantes de emissão de gases de efeito estufa. Os agricultores passaram a enfrentar dificuldades no manejo de diversas culturas devido ao empobrecimento dos solos, enquanto os processos erosivos se acentuaram de forma significativa.

Diante desse cenário, tornou-se urgente implementar modelos agrícolas mais equilibrados, que busquem não apenas a conservação, mas a regeneração dos ecossistemas produtivos, integrando ciência, respeito à natureza e valorização dos conhecimentos tradicionais. Práticas como plantio direto, cultivo de cobertura, rotação de culturas, compostagem e uso de bioinsumos buscam a recuperação do solo e o menor impacto possível no processo produtivo.

O peso econômico do agro no Brasil

A agricultura é de grande importância para a economia brasileira. Em 2025, a participação da agropecuária no PIB do país foi de 7,1%, acima dos 6,7% registrados em 2024. Quando se consideram as indústrias que dependem do setor ou atuam junto a ele, o agronegócio respondeu por mais de 24% do PIB no mesmo ano.

Um ponto raramente mencionado é a dependência brasileira da importação de insumos, superior a 85% do total. Isso ficou evidente com a guerra entre Rússia e Ucrânia, ambos grandes exportadores de insumos agrícolas para o Brasil, que provocou aumento expressivo no custo de produção e prejuízos ao setor. Do ponto de vista econômico, reduzir a importação de fertilizantes diminuiria a exposição do produtor às variações cambiais, o que seria benéfico para o país.

Nesse contexto surgem outras perguntas. A agricultura regenerativa é mais aplicável a pequenos ou grandes produtores? A técnica regenerativa é mais eficiente e econômica que a tradicional? Quais são os benefícios a longo prazo?

O que dizem os dados sobre custo e produtividade

Lima (2023) fez uma análise aprofundada do tema em sua dissertação de mestrado, comparando custos entre manejo regenerativo e tradicional no Cerrado. Segundo o autor, o uso crescente de bioinsumos redefine o papel do produtor como gestor eficaz de recursos. É necessário entender, porém, se o produto atende às necessidades fisiológicas da planta, já que sua composição envolve organismos vivos que podem responder de forma diferente ao clima e ao ambiente.

O aspecto financeiro volta a aparecer como fator central. A análise de custos é fundamental para qualquer negócio, e o investimento inicial em bioinsumos pode desanimar pequenos produtores, apesar dos benefícios de longo prazo, pois o sistema exige precisão, rigor em todos os processos e acompanhamento técnico maior que o tradicional.

O autor registra que um ano de estudo não foi suficiente para uma conclusão definitiva sobre qual manejo seria melhor para soja e milho nos aspectos financeiro e agronômico, e que essa avaliação exigiria mais tempo. Ainda assim, no projeto piloto anual, o sistema regenerativo se mostrou financeiramente melhor, mesmo com maior número de aplicações. Do ponto de vista agronômico, a soja apresentou melhores resultados no sistema tradicional, enquanto o milho teve desempenho superior no regenerativo. A conclusão é que um planejamento de plantio bem feito, seguindo processos regenerativos e mantido ao longo do ciclo produtivo, traz benefícios no longo prazo.

Mercado e programas corporativos

Outro fator relevante é o momento atual. Muitos consumidores estão dispostos a pagar mais por alimentos de melhor qualidade, e os mercados orgânico e regenerativo apresentam demanda crescente. Empresas multinacionais passaram a divulgar apoio e investimento em práticas regenerativas, e no Brasil dois exemplos são os programas da Bayer e da Bunge em parceria com a Orígeo.

O programa da Bayer concentra-se na mensuração de emissões de gases de efeito estufa, oferecendo cálculo da pegada de carbono por cultura, estimativas de sequestro de carbono no solo, rastreabilidade das práticas adotadas e acesso a linhas de crédito específicas. O programa da Bunge com a Orígeo, joint venture entre Bunge e UPL, propõe apoiar o produtor na transição para uma agricultura de baixo carbono, com suporte técnico e serviços voltados à redução de emissões, e inclui uma websérie que incentiva a produção de culturas como mamona e canola em grandes sistemas produtivos, com foco em biocombustíveis e saúde do solo.

Vale observar que esses programas são iniciativas comerciais das próprias empresas, e seus resultados ainda carecem de avaliação independente. Servem aqui como indicação de que o tema entrou na agenda do setor, e não como recomendação.

O solo precisa de tempo

No cenário atual, as práticas sustentáveis ganham força, seja pela demanda de consumidores que buscam alimentos mais saudáveis, pela pressão de governos e empresas ou pela necessidade de recuperar a saúde dos solos. Porém, ainda que a agricultura regenerativa possa se mostrar financeiramente mais eficiente que a tradicional, ela exige acompanhamento e tempo para gerar bons resultados. Nada é imediato.

O solo funciona como nosso corpo. Quem depende de álcool ou cigarro sofre nos primeiros meses após parar e precisa de tempo para se recuperar. Um solo pobre e esgotado precisa ser bem cuidado e manejado para recuperar sua microbiota e voltar a expressar potencial produtivo.

Referências

Bayer Crop Science. Pro Carbono.

Bunge. Agricultura Regenerativa.

CropLife Brasil (2024). Agricultura regenerativa.

Lima, J. S. (2023). Avaliação econômica das práticas agrícolas: um estudo comparativo de custos na agricultura regenerativa e tradicional no Cerrado. Dissertação de mestrado, Instituto Federal Goiano, Rio Verde, 99 p.

Mazoyer, M., e Roudart, L. (2010). História das agriculturas no mundo: do neolítico à crise contemporânea. São Paulo: Editora UNESP.

Orígeo. Rota Regenerativa.

Park, I. A timeline of the three major agricultural revolutions in history. Population Education.

Saraiva, A. Perfil do PIB brasileiro muda e agro ganha relevância. Valor Econômico.

Sinara Bueno Schiavon
Especialista em Sustentabilidade

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