Os desafios e benefícios de unir tecnologia agrícola e sustentabilidade no Brasil

Sinara Bueno Schiavon

Especialista em Sustentabilidade

6 min de leitura
16/06/2026
Os desafios e benefícios de unir tecnologia agrícola e sustentabilidade no Brasil

Fala-se muito hoje em dia sobre levar mais tecnologia ao campo, sobre como ela pode melhorar a produção, reduzir custos e até tornar a agricultura mais sustentável. O que se discute bem menos é o quanto isso é difícil e o quanto precisa ser pensado caso a caso, de forma que o produtor rural não invista em tecnologias que não são replicáveis para a sua realidade.

Em um mundo tão conectado, por que alguns produtores adotam inovações e outros não? Por que algumas pessoas aceitam tão bem as novidades enquanto outras são mais resistentes? As respostas dependem de vários fatores, entre eles as condições socioeconômicas do produtor, a sua realidade, o tipo de produção, o custo de implementação e manutenção da propriedade, as características da própria tecnologia, a região e o conhecimento técnico.

Produção agrícola e sustentabilidade no Brasil

Quando olhamos para a realidade do Brasil, um país de proporções continentais e com extensão territorial maior que todo o continente europeu, esse desafio fica ainda mais evidente. Práticas ou metodologias de trabalho aplicáveis no continente europeu dificilmente funcionariam bem na América do Norte, assim como as práticas norte-americanas dificilmente funcionariam bem na América do Sul. O tempo também conta, pois uma tecnologia ou prática hoje vista como positiva em uma região pode ser considerada destrutiva em outro lugar, ou até por todos, no futuro. Já em 1987, Romeiro chegava a essa conclusão ao afirmar que a diferença entre a agricultura americana do século XIX e a agricultura europeia da época em que escreveu estava na ausência de uma consciência conservacionista entre os americanos, o que facilitou o desenvolvimento de uma agricultura comercial especulativa para a qual conservar o meio representava custos impensáveis, enquanto o camponês europeu já via a necessidade de preservar a fertilidade da sua terra.

As maiores culturas agrícolas do Brasil mostram como o quadro é variado. A soja supera 150 milhões de toneladas anuais, a cana-de-açúcar tem colheitas que ultrapassam 750 milhões de toneladas, o milho frequentemente passa de 115 milhões de toneladas, o café fica em torno de 4 milhões de toneladas (cerca de 67 milhões de sacas de 60 kg), a laranja supera 15 milhões de toneladas e o algodão passa de 3,5 milhões de toneladas. Cada uma dessas culturas exige um trato diferente, assim como um terreno diferente, um cuidado diferente e tecnologias diferentes. O café, por exemplo, costuma ser cultivado em áreas montanhosas e declivosas, o que dificulta o uso de maquinário, e nesse caso específico, as tecnologias de drones e a construção de curvas de nível são positivas. Já a soja e o algodão são produzidos, em sua maioria, em extensas áreas planas, o que facilita a entrada de maquinário, e a tecnologia usada é outra.

Segundo a Embrapa, importante empresa pública brasileira com foco em pesquisa, desenvolvimento, inovação e sustentabilidade, um conjunto de tecnologias aplicadas ao café permitiu ao Brasil triplicar o volume de produção ao mesmo tempo em que houve redução de 20% da área cultivada. Entre elas estão o sequenciamento do genoma do café, o estudo de cultivares mais produtivas, o plantio em sistemas de renque que permitem maior população de plantas, a nutrição adequada, o manejo de irrigação e o controle do estresse hídrico, os sistemas inteligentes de poda, o manejo integrado de pragas, a micropropagação, os jardins clonais e o uso da braquiária como cultura de cobertura nas entrelinhas.

Outras tecnologias que crescem na cultura do café são o uso de drones para estudos de solo e aplicação de produtos químicos, o que reduz os custos operacionais totais e diminui as perdas por amassamento de plantas, além dos biodefensivos, dos aplicativos de monitoramento de pragas e doenças e do sensoriamento remoto.

Nas áreas mais planas do Brasil, cresce cada vez mais o número de produtores que usam maquinário inteligente em busca de otimização dos recursos, economia na produção e um manejo mais sustentável. Os produtores que investem em análises de solo frequentes e usam maquinário moderno conseguem fazer uma aplicação direcionada, de forma que cada área recebe uma aplicação em taxa variável de acordo com a sua necessidade, o que reduz muito o uso de insumos. O maquinário moderno já conta com telemetria e consegue informar qual atividade foi feita, seja plantio, adubação, defesa ou colheita, além da data, da dosagem, do produto utilizado, da quantidade de combustível usada na operação e da velocidade da máquina. Todos esses dados geram informações para que os administradores apliquem os produtos de forma cada vez mais eficaz e até antecipem problemas. Estudos que combinam sensoriamento remoto com informações climáticas permitem identificar secas, chuvas intensas, calor ou frio em excesso, áreas com problemas de fertilidade e solo exposto.

Exemplos práticos do uso da tecnologia agrícola

O sensoriamento remoto pode identificar uma área do talhão com menor vigor vegetativo no ápice da cultura ao longo de alguns anos. O primeiro passo é uma visita técnica in loco para entender se há algo visível a olho nu e verificar se o solo ali é mais arenoso que o restante, por exemplo. Em seguida, recomenda-se a análise de solo das áreas para comparação. Muitas vezes, em um talhão com menor vigor, soluções sustentáveis como torta de mamona ou cama de frango já são suficientes para corrigir o problema.

Áreas exclusivas de pastagem, ou de pastagem consorciada com uma cultura como o milho, podem ter talhões ou setores com menor produção, às vezes por causa do pisoteio do gado. Nesse caso, o sensoriamento remoto ajuda a identificar manchas de solo, e o ideal é comparar diferentes anos e diferentes períodos do ano, como o período chuvoso e o de estiagem. Essa comparação é importante, pois análises realizadas apenas no período de estiagem naturalmente mostrarão menor vigor vegetativo. Assim, o produtor consegue identificar como melhorar a saúde do solo e, com ela, a pastagem que alimenta o rebanho, já que o gado pode até perder peso quando a qualidade da pastagem na área cai.

Os desafios

Como já foi dito, o uso da tecnologia varia muito conforme o porte do produtor e da propriedade. Aplicativos de monitoramento de pragas e doenças, estações climáticas modernas com avisos e previsões, drones e sensoriamento remoto podem ser muito caros para os pequenos produtores. Da mesma forma, usar produtos biológicos sem um estudo e uma análise prévia do nível de infestação de pragas e doenças pode trazer sérios prejuízos, mesmo para os grandes produtores.

O Brasil, como já mencionado, é um país de proporções continentais, e muitas propriedades no Cerrado se encontram a grandes distâncias dos centros urbanos, o que dificulta a adoção de tecnologia e a instalação de melhorias, além do tempo de deslocamento, da dificuldade de conexão e dos custos de implantação.

As empresas americanas ou europeias que buscam crescer no mercado brasileiro se deparam com o grande desafio da tropicalização das suas soluções. A grande maioria dessas soluções não resolve as dores dos produtores brasileiros, nem se aplica à realidade local, já que o Brasil tem diversos tipos de solo, de clima e muitas outras particularidades regionais.

Referências

CNA Brasil. Publicações.

Filho, H. M. de S., Buainain, A. M., Silveira, J. M. F. J. da, e Vinholis, M. de M. B. (2011). Condicionantes da adoção de inovações tecnológicas na agricultura. Cadernos de Ciência & Tecnologia, 28(1), 223–255.

Guerra, A. F., Santos, J. de F., Ferreira, L. T., e Rocha, O. C. (2021). Em Telhado, S. F. P. e, e Capdeville, G. de (Eds.), Cafés do Brasil: pesquisa, sustentabilidade e inovação. Tecnologias poupa-terra 2021. Brasília, DF: Embrapa.

Romeiro, A. R. (1987). Ciência e tecnologia na agricultura: algumas lições da história. Cadernos de Ciência & Tecnologia, 4(1), 59–95.

Sinara Bueno Schiavon
Especialista em Sustentabilidade

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