ENVOLVENDO AGRICULTORES FAMILIARES EM CADEIAS DE VALOR: QUEM GANHA?

Algumas das agências de desenvolvimento, especialistas e funcionários públicos acreditam que para sair da pobreza, os agricultores familiares devem fazer parte de uma “economia global produtiva”, ou seja, de uma “cadeia de valor global”. Tecnicamente, para que os agricultores familiares façam parte da economia global produtiva, eles deveriam se concentrar na produção de produtos exportáveis (por exemplo, manga, gergelim, soja, etc.). No entanto, dada a situação da maioria dos agricultores familiares nos países em desenvolvimento, se promovermos a participação em cadeias de valor global, não correríamos o risco de desviar a atenção do problema principal destes países, ou seja, produzir comida suficiente para alimentar a população? E, pior ainda, não estaríamos “ajudando” os agricultores familiares pobres a se tornar dependentes do capricho de consumidores estrangeiros?

Existem algumas considerações a serem feitas para entender melhor os benefícios que os agricultores familiares poderiam ter quando se envolvem em cadeias de valor. Por exemplo:

  • O envolvimento do agricultor familiar em uma cadeia de valor traz a vantagem de comercializar o produto a um preço fixo (e talvez um preço mais alto). No entanto, o envolvimento geralmente vem com alguns custos adicionais relacionados a um novo sistema de produção e os esforços para cumprir e respeitar determinados padrões.
  • Muitas vezes, o agricultor familiar só pode utilizar um sistema de produção novo após intensa capacitação e através de investimentos adicionais em insumos e equipamentos. As vezes o novo sistema de produção exige um capital substancial e normalmente grandes áreas de cultivo (para obter economias de escala). No final, é a relação custo-benefício que determina se o envolvimento do agricultor na cadeia de valor faz sentido. Se apenas um pequeno número de agricultores envolvidos em uma cadeia de valor ganha uns dólares a mais, um projeto caro que promova o envolvimento de muitos agricultores familiares pode não ser justificado.
  • Alterar um sistema de produção (principalmente para agricultores familiares) requer tempo, treinamento contínuo e, talvez algum apoio financeiro, além da interação entre os agricultores familiares para promover a mudança para as novas técnicas de produção.

O envolvimento de agricultores familiares em cadeias de valores poderia gerar benefícios para os agricultores, bem como para os compradores, fornecedores e outros atores da cadeia de valor desde que algumas condições estejam em vigor. Por exemplo:

  1. O envolvimento de agricultores familiares pode funcionar em todas as cadeias de valor, exceto aquelas nas quais os agricultores familiares acham que é difícil produzir de acordo com os padrões exigidos ou, ao fazê-lo, exige muito em termos de esforços e capital. Em várias situações, uma comunidade de agricultores familiares pode não ser capaz de produzir produtos sofisticados.
  2. Todos os agricultores familiares podem se envolver na produção de frutas, vegetais, cereais, raízes, tubérculos e legumes, bem como produtos de origem animal para cadeias de valor nacionais e eventualmente para exportação.
  3. A integração de agricultores familiares na cadeia de valor funciona bem quando proporciona um benefício maior respeito ao que se obteria vendendo fora da cadeia de valor. Em outras palavras, o esforço de entrar na cadeia de valor deve ser recompensado.
  4. O envolvimento de agricultores familiares exige investimentos consideráveis em capacitação técnica. É necessário, portanto uma atenção particular pois o agricultor familiar vive em uma situação onde a aversão ao risco e a escassez de recursos prevalecem. Alterar o método de produção exige tempo, treinamento contínuo, apoio financeiro e interação entre os agricultores familiares para promover a adoção das novas técnicas de produção.
  5. Iniciativas que exigem apenas que os agricultores cumpram somente com os requisitos dos compradores, muito provavelmente não funcionam. Essas iniciativas devem ser acompanhadas por esforços como por exemplo, para melhorar seus negócios através de redução de custos e melhor organização do trabalho.
  6. Se o mercado do produto final é suficientemente grande para incluir todos ou um número razoável de agricultores familiares, talvez não faça sentido envolver agricultores familiares.
  7. Acordos contratuais podem funcionar, mas dependem do ambiente sociocultural do país.
  8. Em muitos países em desenvolvimento, o agricultor familiar e os provedores de insumos são de suma importância e, em muitos casos, conduzem acordos não escritos. Isto poderia ser a base para o estabelecimento de negócios sustentáveis.

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Walter De Oliveira
Walter De Oliveira

WALTER DE OLIVEIRA HAS MORE THAN 23 YEARS OF PROFESSIONAL EXPERIENCE IN RURAL DEVELOPMENT, FOCUSED ON ANALYSIS OF AGRICULTURAL PRODUCTION SYSTEMS AND INSTITUTIONAL CAPACITY BUILDING. HE HAS VAST EXPERIENCE IN PROVIDING POLICY ADVICE AND TECHNICAL ASSISTANCE TO ALL LEVELS OF GOVERNMENT ON FOOD SECURITY, AGRIBUSINESS, VALUE CHAIN, FARMER FIELD SCHOOLS, VOUCHER SCHEMES AND OTHER RURAL DEVELOPMENT ISSUES. MOREOVER, HE IS AN EXPERT IN FACILITATING SOUTH-SOUTH COOPERATION AND PUBLIC-PRIVATE PARTNERSHIPS. HE IS CURRENTLY WORKING FOR FAO IN HAITI.